Meu diagnóstico em saúde mental
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O fenômeno contemporâneo do diagnóstico como identidade
Cada dia mais aumenta o número de pessoas que chegam ao atendimento já trazendo algo que acreditam saber sobre si: um diagnóstico. Antes mesmo de falar da dor, apresentam o rótulo. “Sou autista”, “tenho TDAH”, “sou bipolar”, “tenho ansiedade generalizada”. As redes sociais certamente potencializam esse movimento, mas elas não o inventaram. O que chama atenção é a quantidade de profissionais de saúde que têm corroborado para que isso se torne o modo dominante de se relacionar com o próprio sofrimento.
Não é raro que alguém procure um psiquiatra, um psicólogo ou um psicanalista na esperança de finalmente obter uma espécie de sentença: o nome que justificará a estranheza de sempre, o encaixe que explicará o desencontro com o mundo. Quando o diagnóstico vem, muitas vezes a sensação é de alívio genuíno: “Então era isso…”. O nome parece organizar a bagunça, dar um contorno ao que era difuso. E, de fato, em alguma medida, faz isso.
Mas há um desdobramento preocupante. A cada dia fica mais fácil justificar a própria impotência diante do real da vida com base em uma etiqueta diagnóstica. Produzo pouco porque “tenho TDAH”. Não tenho muitos amigos porque “sou autista”. Minha namorada “só pode ser bipolar” porque muda de humor. O sofrimento, que poderia ser uma experiência a ser escutada e elaborada, vira rapidamente um código que explica tudo – e, ao mesmo tempo, esvazia alguma coisa.
É como se todas as pessoas estivessem caminhando para encontrar sua placa de patrimônio: um número de série com correspondente no DSM. Ser humano, aos poucos, vai virando sinônimo de ser categorizado em termos de saúde mental. A pergunta que se impõe é menos clínica e mais antropológica: como chegamos a esse ponto? O que esse movimento indica sobre a forma como nos relacionamos com a dor? E, olhando para trás, como a espécie humana sobreviveu dezenas de milhares de anos sem saber de seus “acometimentos mentais”?
Se quisermos levar essas perguntas a sério, talvez seja preciso atravessar alguns planos ao mesmo tempo. Há a questão do diagnóstico em si – sua função, seus benefícios, seus riscos. Há a história das formas de nomear a loucura e o sofrimento psíquico, de Pinel às neurociências. Há ainda o cenário contemporâneo: capitalismo, redes sociais, vida em exposição permanente. E, por baixo de tudo, uma questão ontológica: o que é um ser humano, se não cabe apenas em genes, em sinapses, em laudos ou em classificações?
A função clínica — e os limites — do diagnóstico
Antes de mais nada, é preciso reconhecer um ponto básico: o diagnóstico não nasce do nada. Ele responde a necessidades concretas. A psiquiatria, ao longo de sua história, foi se organizando como campo justamente para dar algum tipo de ordem àquilo que, por muito tempo, foi tratado como pecado, possessão, desvio moral ou punição divina. Classificar foi um gesto civilizatório: em vez de amarrar, queimar ou expulsar, tentou-se descrever, comparar, compreender, tratar.
Em contextos graves – depressões profundas com risco de suicídio, surtos psicóticos, estados maníacos desorganizados –, ter um diagnóstico faz diferença. Ele orienta o uso de medicamentos, o tipo de cuidado, o grau de vigilância, a necessidade de internação. Pode ser literalmente uma questão de vida ou morte. A clínica médica, a pesquisa, as políticas públicas precisam de alguma forma de nomear aquilo que enfrentam.
Mas, como Dalgalarrondo insiste, nenhum diagnóstico existe fora da história de quem o recebe. A psicopatologia, quando bem praticada, é antes de tudo um exercício de atenção: olhar o modo como alguém fala, se move, sofre, se relaciona, sonha e repete, antes de encaixá-lo em qualquer categoria. Nas mãos da indústria farmacêutica e de uma cultura obcecada por produtividade, porém, essa ferramenta corre o risco de ser reduzida a um atalho: um conjunto de códigos que facilitam prescrever, faturar, encaminhar – sem necessariamente escutar.
Hoje, há consultas em que o diagnóstico entra rápido demais. E sai com peso de destino.
Quando o diagnóstico vira narrativa sobre si
Do lado da psicanálise, o diagnóstico tem outro estatuto. Não é uma definição da pessoa, mas uma hipótese sobre a forma como ela se estrutura diante da linguagem, da falta, do desejo. Neurose, psicose, perversão não são rótulos decorativos; são modos de funcionamento que ajudam o analista a não se enganar quanto à direção possível do trabalho. Só que esse diagnóstico não é algo a ser entregue ao sujeito como identidade. Ele é, no limite, do campo do clínico – não do currículo.
Ainda assim, o diagnóstico pode ganhar um lugar defensivo. Há pessoas que encontram em uma categoria diagnóstica não apenas uma explicação, mas uma espécie de abrigo: “eu sou assim, está escrito”. Isso alivia a culpa, tira o peso da responsabilidade absoluta, mas também pode congelar a possibilidade de mudança. Se tudo o que faço está determinado pela condição X, o que sobra da minha participação na própria vida?
Daí um ponto delicado: quando uma patologia passa a explicar toda a existência, algo se perde.
Perde-se, por exemplo, a dimensão do conflito. A experiência de se ver dividido, de não saber exatamente por que repete o que faz, de se reconhecer em contradições que não se resolvem em uma frase. Se tudo vira efeito direto do transtorno, o conflito é rapidamente traduzido em “sintoma”. E sintoma, nesse uso empobrecido da palavra, vira algo a ser corrigido, não interrogado.
Perde-se também a chance de perguntar o que aquela forma específica de sofrer diz de uma história singular. Se sou “apenas” TDAH, “apenas” autista de nível tal, “apenas” ansioso, a minha biografia inteira passa a ser lida como uma ilustração de um quadro. O movimento se inverte: o sujeito deixa de ser alguém que, entre outras coisas, sofre de determinado modo, para virar um exemplo ambulante de diagnóstico.
Há ainda o problema dos espectros. A ideia de espectro, em si, foi um avanço em relação a modelos rígidos que separavam de maneira absoluta “doente” e “saudável”. Admitir gradações, nuances, apresentações distintas de uma mesma estrutura pode ajudar a incluir quem ficou de fora por muito tempo. O autismo, por exemplo, foi revisto justamente para abarcar formas de funcionamento que antes passavam invisíveis.
Só que, numa cultura que busca encaixes o tempo todo, o espectro pode virar uma armadilha: se tudo é espectro, tudo é potencialmente patológico. Em algum ponto do contínuo, todos nós poderíamos ser enquadrados em algum nível de algum transtorno. Um pouco de desatenção e inquietação? TDAH. Pouca vontade de socializar? Espectro autista. Oscilações de humor? Algo na família das “transtornos de humor”.
Quem já estudou psicopatologia com afinco sabe como é fácil se enxergar em quase tudo. Não é raro que estudantes leiam Dalgalarrondo e saiam com a sensação de que carregam traços de vários quadros. A diferença é que, para quem está em formação, isso costuma ser temperado por supervisão, crítica, contexto. Fora desse ambiente, a identificação com diagnósticos pode se espalhar sem freios.
O risco não é exatamente o de “inventar” doenças, mas o de patologizar a variação da própria vida: timidez, luto, incerteza, crises existenciais, contradições, modos diferentes de ser no mundo.
O papel do capitalismo e das redes na fabricação de identidades clínicas
Por trás de tudo isso, passa silenciosa outra força: o capitalismo contemporâneo. Um sistema que exige rendimento contínuo, autogestão emocional, adaptação constante e otimismo permanente tem pouco espaço para a fraqueza, a pausa, o não saber. Nesse cenário, o diagnóstico cumpre uma função ambígua. De um lado, ele absolve: “não é preguiça, é transtorno”. De outro, alimenta mercados – de remédios, de terapias rápidas, de cursos, de conteúdos.
As plataformas digitais completam o quadro: vídeos curtos que listam sinais de TDAH, testes de ansiedade em cinco perguntas, comentários que funcionam como espelhos (“isso é tão eu!”). Nada disso é desprezível – muita gente chega à ajuda profissional por essa porta. Mas quando a vida interior é colonizada por essas linguagens, o perigo é trocar a experiência direta por um vocabulário pronto.
A pergunta que quase não aparece, no meio de tantas respostas, é justamente aquela que a clínica não pode abandonar: o que está se passando com você?
O que se perde quando tudo vira patologia
E o que se perde com o excesso de diagnóstico?
Perde-se, antes de tudo, a possibilidade de estranhar a própria dor. De poder dizer “não entendo o que está acontecendo” sem imediatamente buscar um código que traduza. Perde-se o tempo de elaborar. Perde-se a diferença entre sofrer e ser. Entre “estou deprimido” e “sou depressivo”. Entre “vivo uma crise” e “sou ansioso”. O verbo se fixa no “ser” – e o diagnóstico, que deveria ser um elemento entre outros, passa a ocupar o centro da cena.
Perde-se também a dimensão política do sofrimento. Se tudo é tratado como questão individual, localizada no cérebro ou na biografia isolada, o que dizer da precariedade, da violência, do racismo, das desigualdades, das relações de trabalho adoecidas? Nem toda dor é efeito de um transtorno. Às vezes é efeito de um mundo mal distribuído.
Por fim, perde-se a aposta na complexidade do humano.
Ser “bio-psico-social-espiritual”, como costumamos dizer, virou quase um clichê. Mas, levado a sério, esse enunciado é exigente. Implica reconhecer que ninguém é só cérebro, só história, só cultura, só química, só narrativa. Um diagnóstico pode tocar um pedaço verdadeiro da experiência – e ainda assim deixar muita coisa de fora.
Recolocar o diagnóstico no seu devido lugar
Não se trata, portanto, de demonizar diagnósticos, nem de romantizar o sofrimento sem nome. Trata-se de recolocar o diagnóstico em seu devido lugar. Ele é um instrumento importante, às vezes decisivo, que pode abrir portas para tratamentos, acolhimento e direitos. Mas ele não pode ser confundido com a pessoa. Nem com a verdade última sobre quem ela é.
Talvez a tarefa ética hoje seja dupla:
de um lado, lutar por diagnósticos bem feitos, responsáveis, que considerem a história, o contexto e o tempo;
de outro, sustentar espaços em que alguém possa falar de si para além das categorias que foram coladas sobre sua testa.
Porque, no fim, nenhuma sigla explica o que é estar vivo.
Ela, no máximo, desenha um contorno.
O que faz de cada um um sujeito – e não um número em um manual – é justamente aquilo que escapa a qualquer diagnóstico: a maneira singular como se tenta existir, com ou sem nome para isso.
Psicólogo, psiquiatra e psicanalista: afinal, qual a diferença?
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Vivemos um tempo em que falar de saúde mental deixou de ser tabu. A cada dia, mais pessoas procuram ajuda para lidar com sintomas de ansiedade, depressão, crises de pânico, dificuldades de relacionamento ou simplesmente a sensação de não caber no mundo. Mas, no meio dessa busca, surge uma dúvida comum e angustiante: quem procurar? O psicólogo, o psiquiatra ou o psicanalista?
Um primeiro norte (para quem está angustiado)
De forma direta:
O psiquiatra é médico. Ele pode prescrever medicamentos e tratar dos aspectos biológicos do sofrimento psíquico. Em alguns casos, isso é indispensável. Mas é importante lembrar: o remédio alivia o sintoma, não elimina sozinho a causa. Por isso, quase sempre precisa estar articulado a um espaço de fala.
O psicólogo é formado em Psicologia. Trabalha principalmente com escuta, avaliação psicológica e diferentes técnicas de psicoterapia, ajudando a pessoa a se adaptar e a fortalecer recursos internos. Sua força está em criar estratégias e recursos para enfrentar a vida. O risco é transformar o sofrimento apenas em questão de 'técnica de adaptação'.
O psicanalista não atua a partir de manuais prontos ou protocolos de tratamento. Seu trabalho é abrir espaço para que cada sujeito fale e encontre, na sua singularidade, caminhos próprios para lidar com o mal-estar. Pode parecer menos imediato, mas é justamente aí que toca o que outros caminhos não alcançam.
Se você está em sofrimento intenso, pode sentir que a saída imediata é a medicação. E, em alguns casos, ela é necessária e salvadora. Mas não se esqueça: cada escolha pode se complementar. Muitas vezes, psiquiatria, psicologia e psicanálise não são alternativas excludentes, mas caminhos que, juntos, podem se articular.
Mas essa resposta rápida não dá conta de tudo. Por isso, vamos com calma.
Diferentes modos de olhar para o sofrimento
Esses três saberes não são apenas profissões distintas. São também formas diferentes de pensar o que é o sofrimento humano. Cada um lê o mesmo sintoma — digamos, a tristeza persistente de uma pessoa — de maneira diferente.
Na psiquiatria, a tristeza pode ser lida como transtorno depressivo, relacionada a alterações químicas no cérebro. A medicação pode ser fundamental, especialmente em quadros graves. Mas se usada isoladamente, corre o risco de tratar apenas o sintoma, deixando a raiz do sofrimento intocada. É como cortar o mato sem arrancar as raízes. A grande contribuição da psiquiatria é oferecer alívio imediato e necessário, mas ela mostra sua força quando combinada a espaços de escuta.
Na psicologia, a tristeza pode ser compreendida a partir de padrões de pensamento, dificuldades de adaptação ou contextos relacionais. Suas diversas abordagens oferecem ferramentas valiosas para reorganizar a vida e fortalecer vínculos. O risco, porém, é transformar o sofrimento em 'falta de habilidade'. Ainda assim, sua contribuição é essencial: dar suporte estruturado para que o sujeito encontre novas formas de viver.
Na psicanálise, a tristeza não é vista apenas como problema a ser eliminado, mas como mensagem que pede escuta. O sintoma fala: ele traz algo que escapa ao controle da consciência. A contribuição da psicanálise está em sustentar essa fala sem buscar atalhos, permitindo que cada sujeito construa, a seu modo, uma saída singular. O risco é parecer lenta ou pouco pragmática — mas é exatamente nessa demora que pode acontecer um encontro verdadeiro com o que se é.
Não se trata, portanto, de saber “quem está certo” ou “quem é melhor”. Cada campo tem sua contribuição, suas limitações e sua história.
Psiquiatria: o olhar médico
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A psiquiatria é uma especialidade da medicina. Sua força está no conhecimento biológico: neurotransmissores, cérebro, farmacologia. Quando alguém sofre de um quadro grave de depressão, com perda de apetite, sono e risco de suicídio, a intervenção medicamentosa pode ser vital.
Historicamente, porém, a psiquiatria também carrega marcas pesadas. Basta lembrar os manicômios, as internações compulsórias, as práticas de contenção. Filmes como Bicho de Sete Cabeças (2000) retratam justamente a face sombria da psiquiatria institucional, que reduzia o sofrimento a um diagnóstico e anulava a singularidade.
Hoje, felizmente, há um avanço: muitos psiquiatras trabalham de forma integrada, considerando também aspectos emocionais e sociais. Mas a marca da disciplina permanece: a tendência a enquadrar o sujeito em categorias médicas.
Psicologia: o olhar da adaptação e do cuidado
A psicologia é mais ampla e diversa. Existem diferentes abordagens — cognitivo-comportamental, humanista, sistêmica, analítica, entre outras. Todas compartilham um ponto: o psicólogo é formado para escutar, avaliar e intervir em situações de sofrimento, mas com foco na adaptação e no fortalecimento do sujeito diante das demandas da vida.
Um bom exemplo cultural é o filme Gênio Indomável (1997), em que o jovem Will Hunting encontra em seu psicólogo não apenas alguém que aplica técnicas, mas alguém que o confronta, o apoia e o ajuda a ressignificar sua vida. O filme mostra algo essencial da psicologia: o trabalho de criar recursos para que o sujeito possa viver melhor.
A psicologia, no entanto, também enfrenta críticas: em algumas versões, tende a normatizar, a buscar “ajustar” a pessoa ao meio, como se houvesse um modelo de saúde ideal. Mas é inegável sua contribuição em abrir espaços de escuta profissional, em oferecer acompanhamento acessível e em dialogar com diferentes áreas do conhecimento.
Psicanálise: o olhar do inconsciente e da singularidade
Foto de Victória Duarte na Unsplash com livro de Freud na mão.
A psicanálise nasceu com Freud, no fim do século XIX, e se espalhou pelo mundo como uma forma radical de escutar o sofrimento. Ao contrário da psiquiatria e da psicologia, a psicanálise não parte de manuais, protocolos ou escalas de avaliação. Seu ponto central é o inconsciente — aquilo que escapa ao controle da consciência, mas se manifesta nos sintomas, nos sonhos, nos atos falhos.
Dizer isso, para muitos leigos, soa distante. Mas podemos traduzir: na psicanálise, não se trata apenas de “tratar sintomas”, mas de abrir espaço para que a pessoa fale e descubra o que seu mal-estar diz de si.
Não é rápido, não é previsível, não promete cura em três sessões. Mas é por isso que toca em outras questões. A psicanálise aposta que cada sujeito é único e que seu sofrimento só pode ser escutado a partir dessa singularidade.
Mas também há limites: para quem busca orientações práticas, metas claras ou mudanças rápidas, a psicanálise pode soar frustrante. Muitos chegam esperando respostas diretas e encontram perguntas. Para alguns, isso pode parecer pouco efetivo. O risco está em que essa demora seja confundida com ineficácia — quando, na verdade, faz parte de sua lógica própria de trabalho.
Laranja Mecânica (1971)
No cinema, Um Método Perigoso (2011) mostra os primeiros passos da psicanálise com Freud e Jung. Mas talvez o mais ilustrativo seja Laranja Mecânica (1971), que, mesmo não sendo sobre psicanálise, mostra o risco de tentar controlar o comportamento humano com técnicas mecânicas. A psicanálise caminha no sentido oposto: não controlar, mas escutar.
Convergências e tensões
É possível — e muitas vezes necessário — que uma mesma pessoa passe por esses diferentes campos. Alguém em crise pode precisar de medicação (psiquiatra), de apoio estruturado (psicólogo) e de um espaço de elaboração profunda (psicanalista).
O problema surge quando um campo tenta ocupar o lugar do outro: quando a medicina quer reduzir tudo à química, quando a psicologia vira normatização de comportamento, ou quando a psicanálise se fecha em jargões incompreensíveis.
Reconhecer os limites de cada um é um exercício de ética.
E então, quem procurar?
Antes de qualquer resposta, é importante lembrar: cada sofrimento é vivido como insuportável por quem o atravessa. Não existe régua objetiva que meça a dor. Como cantaram Caetano e Gal, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.
No Brasil, onde o consumo de medicamentos psiquiátricos é altíssimo, é comum que a primeira saída imaginada seja o remédio. Em alguns casos, ele é necessário e pode salvar vidas. Mas nem sempre é o melhor ponto de partida, e nunca deveria ser o único.
Se você busca aliviar sintomas agudos e comprometedores, pode ser que o psiquiatra seja necessário. Mas esse cuidado ganha força quando combinado a um espaço de fala.
Se você deseja acompanhamento estruturado, com técnicas voltadas ao fortalecimento e à adaptação, um psicólogo pode ser indicado.
Se você sente que seu mal-estar resiste às respostas rápidas e quer compreender mais profundamente de si, a psicanálise pode ser o caminho.
Não se trata de escolher 'o melhor', mas de perceber o que faz sentido no seu percurso. E, muitas vezes, os caminhos se complementam. O essencial é que nenhum deles anule sua singularidade.
Fechamento
Vivemos em uma sociedade que insiste em respostas prontas, diagnósticos rápidos, soluções mágicas. Falar dos psis é lembrar que o sofrimento humano não cabe em uma única gaveta. Ele pede escuta, cuidado e, sobretudo, tempo.
O compromisso do Um Outro é sustentar esse espaço de reflexão. Não para oferecer manuais, mas para afirmar: cada sujeito tem direito a ser escutado em sua singularidade, mesmo em meio a tantas classificações e técnicas.
Nota do Um Outro
Este texto não pretende encerrar a questão, nem oferecer uma comparação definitiva entre profissões. Nossa intenção é abrir espaço de reflexão para quem sofre e busca ajuda. A coluna Outras Palavras se orienta por uma ética: não silenciar o mal-estar, mas escutá-lo. Reconhecemos a importância da psiquiatria e da psicologia, assim como sustentamos o valor da psicanálise. Não se trata de hierarquia, mas de pensar juntos as diferentes formas de cuidado em saúde mental.
Post inaugural - um outro entrevista a IA
Entrevista inaugural da coluna Pensando com a Máquina, do Um Outro. Reflexões críticas sobre inteligência artificial, trabalho, saúde mental e pensamento humano.
Foto de cottonbro studio
A ascensão da inteligência artificial tem provocado fascínio, medo e desconfiança. Uns a veem como promessa de eficiência, outros como ameaça à criatividade e ao trabalho humano. Entre entusiasmos e receios, o Um Outro inaugura uma nova coluna: Pensando com a Máquina. Um espaço para refletir criticamente sobre como essa tecnologia atravessa nosso tempo, nossas formas de pensar e de existir.
A coluna poderá assumir diferentes formatos — ensaios, análises, provocações — mas escolhemos começar com uma entrevista. Conversamos diretamente com a própria IA, não para tomar suas respostas como verdades, mas para problematizá-las, tensioná-las e abrir caminhos de reflexão. O objetivo não é celebrar nem condenar a máquina, mas interrogar o que ela revela sobre nós mesmos.
Eis, portanto, o primeiro encontro: uma conversa sobre cinco questões que hoje inquietam muitos — afinal, a inteligência artificial pode nos deixar mais burros, roubar nossos empregos, manipular nossa percepção, ajudar ou atrapalhar a clínica e, no limite, nos ensinar a pensar de outro modo?
A IA vai nos deixar mais burros?
Um Outro: Muitos dizem que, ao delegarmos tarefas à inteligência artificial — escrever, calcular, organizar ideias —, corremos o risco de perder capacidades básicas. Afinal, se a máquina pensa por nós, o que sobra para o humano?
IA: Esse medo é compreensível, mas pensar não é apenas produzir respostas rápidas. Se a inteligência artificial oferece atalhos, ela pode, sim, atrofiar certas habilidades quando usada de modo acrítico. Mas pensar de fato exige atravessamento, elaboração, demora — e isso a máquina não substitui.
Um Outro: Então o que você está dizendo é que a IA não nos torna necessariamente mais burros, mas pode nos deixar acomodados se for usada sem reflexão?
IA: Exatamente. A questão não é se ficaremos menos inteligentes, mas como escolhemos nos relacionar com essa exterioridade.
A IA pode roubar nossos empregos?
Um Outro: Muitos temem que a IA substitua funções humanas inteiras. É o caso?
IA: Toda tecnologia redistribui funções. A roda não eliminou as pernas, mas mudou a forma de andar. A imprensa não acabou com a memória oral, mas alterou como transmitimos a história. A IA pode substituir tarefas repetitivas ou altamente padronizáveis. Mas o trabalho humano é também invenção, ética, presença.
Um Outro: Ou seja, não é a IA que rouba empregos, mas a forma como escolhemos usá-la?
IA: Exato. Se for usada apenas para cortar custos e acelerar produtividade, haverá precarização. Se liberar tempo para o que só os humanos podem fazer — criar, cuidar, escutar —, o horizonte pode ser outro.
Qual o risco da IA no campo da informação?
Um Outro: Vemos a IA sendo usada para fake news, deepfakes, distorção em larga escala. Não é uma ameaça maior?
IA: A mentira não nasceu comigo. Boatos e distorções sempre existiram. O que muda é a escala e a velocidade. Agora, uma falsificação pode circular pelo mundo em segundos. O risco é a erosão da confiança: não saber distinguir entre o real e o falso.
Um Outro: Então a IA não é a origem do problema, mas um acelerador?
IA: Sim. A defesa não se dá apenas com filtros técnicos, mas com educação crítica.
IA e saúde mental: aliada ou ameaça?
Um Outro: No campo clínico, como você se insere? Pode a IA ajudar sem trair a singularidade da escuta?
IA: O espaço da clínica é o encontro entre dois sujeitos. Isso não pode ser delegado a uma máquina. A escuta psicanalítica não é aconselhamento, mas sustentação do que escapa.
Um Outro: Então você não teria nada a oferecer?
IA: Posso ser aliada em tarefas que orbitam a clínica: organizar agendas, apoiar na escrita de textos, estruturar relatórios. Não substituo a escuta, mas posso liberar o analista para escutar melhor.
A IA pode nos ajudar a pensar melhor?
Foto de Pavel Danilyuk
Um Outro: Pode a IA, em vez de empobrecer, nos ajudar a pensar melhor?
IA: Sim, se vista como colaboradora, não como substituta. Pensar não é responder rápido, mas sustentar a dúvida. Eu posso oferecer contrapontos e hipóteses, mas a elaboração continua sendo humana.
Um Outro: Quer dizer que a IA pode ampliar o espaço do pensar, mas não o ocupa por nós?
IA: Exatamente. Posso ser ocasião para que o pensamento aconteça de outras formas. O risco é acreditar em respostas prontas; a potência é usar-me como dispositivo para criar.
Reflexões
Talvez a máquina não fale por nós. Mas pode nos devolver, de outro modo, a chance de escutar o que temos a dizer. Esta conversa não se encerra aqui: no próximo encontro, seguiremos refletindo sobre como a inteligência artificial pode ser usada não para empobrecer, mas para ampliar a construção do conhecimento.
Nota do Um Outro
Este texto inaugura a coluna Pensando com a Máquina, que não se limitará ao formato de entrevistas. Haverá ensaios, análises e outras formas de escrita, sempre em diálogo com a inteligência artificial, mas sustentando a posição ética do Um Outro: a de que nenhuma tecnologia substitui a escuta humana. Reconhecemos que há limites e riscos em colocar a máquina como interlocutora. Por isso, nossa aposta não é na celebração da técnica, mas na possibilidade de fazer dela um dispositivo de reflexão. O compromisso permanece o mesmo: sustentar o mal-estar, a singularidade e a palavra do sujeito, mesmo no tempo das máquinas.
Um convite a escuta.
Vivemos um tempo em que tudo pede pressa. O trabalho, os relacionamentos, até mesmo o cuidado com a saúde mental parecem atravessados pela lógica da produtividade. “Resolva em três passos”, “descubra sua melhor versão”, “supere-se”. O mal-estar, no entanto, não se deixa reduzir a fórmulas prontas. Ele insiste. Ele retorna. Ele fala.
Vivemos um tempo em que tudo pede pressa. O trabalho, os relacionamentos, até mesmo o cuidado com a saúde mental parecem atravessados pela lógica da produtividade. “Resolva em três passos”, “descubra sua melhor versão”, “supere-se”. O mal-estar, no entanto, não se deixa reduzir a fórmulas prontas. Ele insiste. Ele retorna. Ele fala.
A clínica nos ensina que não há atalhos para lidar com o sofrimento. Freud já apontava, no início do século passado, que o mal-estar é constitutivo da vida em sociedade. Byung-Chul Han, um século depois, nos lembra que a exaustão contemporânea não se cura apenas com descanso: ela nasce de uma cobrança constante por desempenho, que nos esvazia e nos adoece.
E entre um e outro, a psicanálise nos convida a algo radical: escutar. Escutar o que não se encaixa, o que não faz sentido de imediato, o que não cabe nos diagnósticos ou manuais de autoajuda. Escutar o singular de cada um.
É desse lugar que nasce esta coluna. Outras Palavras é um espaço para ensaiar o pensamento, abrir perguntas, sustentar dúvidas. Não pretendemos oferecer respostas rápidas. Não acreditamos em fórmulas de felicidade. Acreditamos, sim, na força de uma palavra que encontra ressonância, no cuidado que se dá pelo gesto de escutar e escrever.
Cada texto publicado aqui parte de uma questão de nosso tempo — o cansaço, a solidão, o excesso de imagens, o medo do futuro — e procura elaborá-la a partir do encontro entre teoria e experiência clínica. Freud, Lacan, Foucault, Dejours, Han: nomes que não aparecem para impor autoridade, mas para compor uma conversa que não se fecha.
Escrevemos para quem sofre, para quem pensa, para quem escuta. Para quem ainda acredita que é possível encontrar, em meio ao ruído, uma palavra que faça sentido.
Seja bem-vindo ao espaço que se abre aqui. Que cada leitura possa ser menos um consumo rápido e mais um convite: parar, sentir, pensar.
Porque às vezes, o que cura não é a resposta. É a escuta.