Tenho tudo para estar bem. Então por que não estou?
Por que algumas pessoas procuram ajuda quando a vida parece estar funcionando.
Há uma frase que tem aparecido com frequência cada vez maior no consultório.
Ela costuma surgir logo na primeira sessão, quase sempre acompanhada por certo constrangimento.
"Na verdade, eu nem sei se deveria estar aqui."
O que vem depois muda de pessoa para pessoa. Alguns contam que tiveram uma boa infância. Outros dizem que possuem um bom trabalho, uma família, amigos, projetos. Há quem faça questão de explicar que nunca viveu um grande trauma ou que existem pessoas enfrentando dificuldades muito maiores. Quase sempre a conversa gira em torno da mesma ideia: "Minha vida é boa. Não sei se meu problema é grande o suficiente para justificar uma terapia."
Não acredito que isso aconteça por acaso.
Nos últimos anos a saúde mental passou a ocupar um espaço muito diferente daquele que ocupava até pouco tempo atrás. A terapia deixou de ser vista apenas como recurso para momentos de crise e passou a fazer parte das conversas cotidianas. É tema de podcasts, vídeos, redes sociais, livros e reportagens. Para algumas pessoas tornou-se quase um hábito esperado da vida adulta. Para outras, uma experiência sobre a qual sentem que também deveriam saber alguma coisa.
Ao mesmo tempo, nunca tivemos tantas possibilidades de procurar respostas sozinhos.
Quando uma inquietação aparece, abrimos o navegador. Pesquisamos sintomas, fazemos testes, assistimos a vídeos, ouvimos especialistas, perguntamos a uma inteligência artificial. Em poucos minutos encontramos inúmeras interpretações para aquilo que estamos vivendo.
Não vejo isso necessariamente como um problema. Eu mesmo utilizo muitas dessas ferramentas e elas podem ser extremamente úteis.
O que me chama a atenção é outra coisa.
Mesmo cercadas por tantas respostas, muitas pessoas continuam chegando ao consultório sem conseguir formular exatamente qual é a pergunta.
Existe uma situação que encontro com bastante frequência.
Ela aparece quando alguém alcança algo que desejou durante muitos anos.
Terminar a faculdade, conseguir o emprego que tanto sonhou, construir uma fámila e conquistar a casa própria. Quando a pessoa alcança uma estabilidade que durante muito tempo parecia distante e era justamente ali que imaginava encontrar certa tranquilidade., porém ao em vez disso, encontra uma pergunta que não esperava.
"Era isso?"
Não escuto essa pergunta como sinal de ingratidão e nem como sinal de fracasso.
Ela costuma aparecer quando a vida seguiu um caminho que fazia sentido, mas já não consegue produzir o mesmo efeito de antes.
A pessoa continua vivendo a mesma vida.
Quem olha de fora dificilmente percebe alguma mudança.
Mas ela própria já não consegue habitá-la da mesma maneira.
Talvez uma das características mais curiosas do nosso tempo seja a dificuldade de conviver com perguntas.
Quando alguma coisa nos inquieta, imediatamente começamos a procurar uma resposta que organize aquela experiência e é ai que às vezes encontramos um diagnóstico, uma teoria, explicação biológica ( Essa com mais frequência que as outras), um vídeo de poucos minutos ou em uma conversa longa com uma inteligência artificial.
Nem sempre buscamos compreender o que está acontecendo.
Muitas vezes buscamos apenas diminuir o desconforto de ainda não saber.
Essa diferença me parece importante.
Porque uma explicação pode aliviar uma angústia sem necessariamente tocar na pergunta que a produziu.
Na clínica isso aparece de forma muito clara.
Existem pessoas que conseguem explicar muito bem por que fazem determinadas escolhas e, ainda assim, continuam repetindo exatamente os mesmos caminhos.
Outras compreendem racionalmente a origem de seus conflitos, mas percebem que essa compreensão, sozinha, não modifica muita coisa.
Não penso que isso aconteça porque lhes falte inteligência.
Talvez aconteça porque compreender uma experiência e elaborá-la sejam movimentos diferentes.
Há mais de um século, Freud escreveu que não somos senhores em nossa própria casa.
A frase continua provocando desconforto.
Gostamos de imaginar que sabemos por que desejamos determinadas coisas, por que insistimos em alguns relacionamentos ou por que abandonamos outros.
A experiência costuma ser menos organizada do que isso.
Existem desejos que mudam.
Projetos que deixam de fazer sentido.
Escolhas que se repetem sem que consigamos compreender muito bem por quê.
E talvez seja justamente nesse ponto que algumas pessoas procurem ajuda e não é porque estejam vivendo a pior fase de suas vidas ou porque tenham recebido um diagnóstico e nem porque a vida tenha deixado completamente de funcionar e sim porque começaram a perceber que existe uma pergunta que já não consegue mais ser ignorada.
Não escrevi este texto para convencer ninguém a fazer terapia.
Aliás, desconfio bastante da ideia de que a análise seja um caminho necessário para todas as pessoas.
Há quem encontre bons interlocutores na literatura, na filosofia, na religião, na escrita, nas amizades ou em tantas outras formas de elaborar aquilo que vive.
Também não penso que toda inquietação precise se transformar em um acompanhamento clínico.
O que me parece importante é outra coisa.
Perceber que existe uma diferença entre viver uma pergunta e tentar silenciá-la o tempo todo.
Talvez seja isso que escuto quando alguém se senta pela primeira vez diante de mim e diz:
"Na verdade, eu nem sei se deveria estar aqui."
Hoje essa frase já não me parece uma dúvida sobre começar uma terapia.
Ela me parece uma tentativa de dizer, ainda sem encontrar as palavras certas, que alguma coisa deixou de caber na maneira como aquela pessoa vinha vivendo.
E talvez esse seja um bom lugar para começar.