O que existe para além dos diagnósticos?

Uma reflexão sobre saúde mental, sofrimento psíquico e escuta a partir da trajetória de Morel Ricardo de Abreu entre a urgência psiquiátrica, a clínica e a psicanálise.

Existem experiências humanas que desafiam qualquer tentativa de classificação. Há sofrimentos que não cabem em uma palavra, conflitos que atravessam uma vida inteira e modos de existir que frequentemente parecem estranhos, inadequados ou incompreensíveis para aqueles que os observam de fora.

Talvez por isso exista uma tendência constante de transformar a complexidade da experiência humana em categorias cada vez mais precisas. Nomeamos, classificamos, organizamos. Em muitos momentos isso é importante. Os diagnósticos podem orientar cuidados, facilitar o acesso a tratamentos e ajudar pessoas a compreender parte daquilo que vivem.

Mas existe uma diferença entre descrever uma experiência e explicá-la.

Ao longo dos anos em que trabalhei na urgência psiquiátrica da rede pública de Belo Horizonte, encontrei inúmeras pessoas que compartilhavam os mesmos diagnósticos e, ao mesmo tempo, histórias radicalmente diferentes. O sofrimento que as levava até ali não podia ser compreendido apenas a partir de uma categoria clínica. Havia perdas, desejos, relações, medos, modos de vida e formas singulares de ocupar um lugar no mundo.

Foi nesse encontro cotidiano com a complexidade do sofrimento humano que uma pergunta passou a me acompanhar: o que existe para além dos diagnósticos?

Quando o diagnóstico já não explica uma vida

Durante cerca de cinco anos atuei como psicólogo no CERSAM Venda Nova, serviço de urgência psiquiátrica da rede pública de Belo Horizonte. Foi nesse contexto, marcado pelo encontro cotidiano com crises, sofrimento psíquico intenso e situações de extrema vulnerabilidade, que comecei a compreender de forma mais profunda os limites de qualquer tentativa de explicar uma vida apenas através de diagnósticos.

Os diagnósticos possuem sua importância. Eles podem orientar cuidados, facilitar o acesso a tratamentos e organizar parte do trabalho clínico. O problema surge quando começamos a acreditar que eles explicam inteiramente uma pessoa.

Na urgência psiquiátrica era comum encontrar indivíduos que chegavam carregando não apenas um diagnóstico, mas também uma identidade construída a partir dele. O agressivo. O psicótico. O dependente químico. O paciente difícil. O caso perdido.

Mas bastava algum tempo de convivência para que essas definições começassem a se mostrar insuficientes.

Lembro-me de inúmeras situações em que pessoas consideradas perigosas, imprevisíveis ou incapazes revelavam uma sensibilidade, uma inteligência ou uma capacidade de reflexão que surpreendiam aqueles que se aproximavam delas apenas através do diagnóstico. Não porque o sofrimento tivesse desaparecido, mas porque havia ali algo que nunca poderia ser reduzido a uma categoria clínica.

Talvez a principal lição da saúde mental pública tenha sido justamente essa: antes dos diagnósticos existem histórias. Antes das classificações existem sujeitos. E, muitas vezes, aquilo que parece incompreensível à primeira vista só começa a ganhar sentido quando alguém se dispõe a escutar por mais tempo.

Existir é mais do que adaptar-se

Talvez uma das consequências mais silenciosas dos diagnósticos aconteça quando eles deixam de ser uma ferramenta clínica e passam a ocupar o lugar de uma identidade.

Em muitos contextos, aquilo que uma pessoa vive passa a definir quem ela é. O diagnóstico, o ato cometido, a crise vivida ou a dificuldade apresentada tornam-se a principal forma através da qual ela é reconhecida pelos outros.

Mas existe algo profundamente humano que resiste a essa redução.

Ao longo dos anos em que trabalhei na saúde mental pública, encontrei pessoas que pareciam ter sido inteiramente capturadas pelas categorias que lhes foram atribuídas. Em alguns casos, não ocupavam apenas uma posição marginal na sociedade. Pareciam existir fora de qualquer órbita de reconhecimento. Como se já não fossem vistas como sujeitos portadores de uma história, de desejos, de conflitos e de possibilidades, mas apenas como representantes de um problema.

Talvez por isso a escuta tenha uma dimensão que ultrapassa a técnica. Escutar alguém é também reconhecer sua existência para além daquilo que o define aos olhos dos outros.

A saúde mental me ensinou que existir é muito mais do que adaptar-se a normas, expectativas ou lugares previamente estabelecidos. Existir envolve encontrar uma forma singular de habitar o mundo, mesmo quando essa forma não corresponde inteiramente àquilo que a sociedade espera ou compreende.

A clínica da escuta

A experiência na saúde mental pública me ensinou que muitas pessoas chegam aos serviços de saúde já carregando inúmeras definições sobre si mesmas. Algumas vindas dos diagnósticos. Outras da família, da escola, do trabalho, da justiça ou da própria sociedade.

Muitas vezes, antes mesmo de falar, elas já foram explicadas.

Mas existe uma diferença entre ser explicado e ser escutado.

Talvez tenha sido esse o caminho que me aproximou da psicanálise. Não por oferecer respostas definitivas sobre o sofrimento humano, mas justamente por sustentar uma aposta naquilo que permanece singular em cada sujeito.

A escuta não elimina a importância dos diagnósticos, dos medicamentos ou dos diferentes recursos terapêuticos. Mas ela lembra algo fundamental: nenhuma dessas ferramentas substitui o encontro com uma história.

Cada pessoa encontra formas próprias de lidar com suas perdas, seus conflitos, seus desejos e seus impasses. É por isso que duas pessoas podem compartilhar o mesmo diagnóstico e percorrer caminhos completamente diferentes.

Talvez o trabalho clínico comece exatamente aí: na disposição de permanecer diante daquilo que ainda não sabemos sobre alguém.

Ao longo dos anos, a saúde mental pública, a clínica e a psicanálise me ensinaram algo que continua orientando meu trabalho até hoje: nenhuma teoria é capaz de esgotar uma vida.

Os diagnósticos possuem sua importância. Os tratamentos possuem sua importância. As diferentes formas de cuidado possuem sua importância. Mas existe sempre algo que escapa às classificações, aos protocolos e às tentativas de explicar completamente uma experiência humana.

Talvez seja justamente nesse ponto que a escuta encontre sua razão de ser.

Não para eliminar o sofrimento, oferecer respostas definitivas ou produzir explicações completas sobre alguém. Mas para criar condições para que uma pessoa possa ser reconhecida para além das categorias através das quais costuma ser vista.

Ao final desses anos de trabalho, a pergunta que permanece não é o que um diagnóstico revela sobre alguém.

A pergunta que continua me acompanhando é outra:

O que pode surgir quando encontramos uma pessoa para além daquilo que acreditamos saber sobre ela?

Sobre o autor

Morel Ricardo de Abreu é psicólogo, psicanalista e especialista em saúde mental. Atuou por cerca de cinco anos no CERSAM Venda Nova, serviço de urgência psiquiátrica da rede pública de Belo Horizonte. Atualmente realiza atendimentos online e presenciais e integra o projeto Um Outro – Cuidado em Saúde Mental.

Saiba mais sobre a trajetória profissional de Morel Ricardo de Abreu.

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